Entrevista: Clara Não

11/09/2018

Entre a ilustração, o design, a escrita criativa e a arte urbana - Clara Não. A artista que explora sentimentos (in)felizes e bizarros, comuns a todos nós.





Foi ao pesquisar sobre o funcionamento do cérebro humano que Clara Não encontrou o ponto de partida para definir a sua estética. Situações caricatas, comuns a todos nós, são retratadas pelo traço e palavras da jovem artista, com simplicidade, um quê de ingenuidade e, sobretudo, muito humor. De regresso à Faculdade de Belas Artes do Porto, depois de uma temporada a estudar ilustração na Holanda, trouxe na bagagem não só o amor pela escrita como a vontade de se conhecer melhor.




Porquê Clara Não?

Porque não? O meu nome é Clara Silva. Silva é um dos nomes mais comuns do mundo e o segundo de Portugal. Então pensei: “Tenho que mudar de nome! O Clara pode ficar, mas o Silva não…” Fiz uma lista de possibilidades e a minha resposta era sempre “Não! Não, Não!’ Então, ficou o “Não”. Tem a ver comigo e dá para brincar. Clara “Não” vai… Clara “Não” gosta… 

Como descreves o trabalho da Clara Não? 

A Clara Não conta histórias. Eu sei que sinto coisas e sei que sinto muitas coisas, mas é muito difícil para mim dar um nome àquilo que eu sinto. Então, começo a escrever para tentar perceber como expressar isso. Cheguei à conclusão que, se eu me quero perceber, a única pessoa que o pode fazer por mim sou em mesma.
 

 



Como chegaste a essa conclusão?

Tudo começou num exercício de uma cadeira de Mestrado, no qual, através de imagens, tínhamos que nos apropriar de alguma coisa e escolher designações. Na altura, andava a pensar muito na questão do cérebro, porque nós conseguimos perceber como funcionam todos os órgãos do nosso corpo, menos o cérebro. 

Então, comecei a investigar e apercebi-me que aquilo do lado direito e do lado esquerdo não é bem assim. Quando falei disto com o professor da cadeira, ele sugeriu-me escrever sobre isso. Em três horas, fiz 40 textos e agrupei-os pelas zonas do meu cérebro. E foi assim que começou essa passagem do design para a escrita.

O ponto de partida do teu trabalho são sempre as tuas emoções e experiências pessoais?

Exatamente! Tudo o que eu escrevo aconteceu comigo e é verdade! E escrevo sobre mim, porque eu não posso estar no cérebro das outras pessoas…



Podemos encontrar “verdades” da Clara Não espalhadas pela cidade. Porque decidiste usar a “rua” como plataforma?

Decidi fazê-lo quando me apercebi que é muito difícil para mim expor o que faço. É algo muito pessoal e que me custa partilhar. Eu tenho um lado que é um bocadinho rude, que se nota quando eu falo e digo palavrões e sou mais crua. Mas, enquanto que esse lado é mais fácil de mostrar, o outro não. Então, decidi que se era para eu mostrar o que faço às pessoas, que fosse mesmo. E que fosse na rua.

Consideras arte urbana o que fazes? Qual é o feedback que tens tido?

É arte urbana, porque está na rua e pode ser visto por todos. Apesar de que, a maior parte das vezes, eu escrevo com carvão, que sai com o vento e com a chuva. As pessoas, geralmente, gostam. O único problema que tenho é, por vezes, apagarem. Mas eu quero que o façam, para depois fazer mais. 




És dj’s na dupla Shuggah Lickurs. A música é outra paixão da Clara?

Tudo começou com uma brincadeira. Eu fazia parte da associação de estudantes e houve uma altura em que a Carolina, que é uma das minhas melhores amigas, me perguntou se eu podia pôr música numa festa da faculdade. Eu respondi-lhe que sim, mas com duas condições: Que ela se juntasse a mim e que escolhêssemos o nome mais parolo que existe! O certo é que correu melhor do que esperava e o nome acabou por pegar também. Há já três anos que somos residentes no Maus Hábitos e agora até temos uma tatoo de comemoração. 

Como vês o futuro?

Depois de experimentar muito e de nunca estar totalmente satisfeita, começo finalmente gostar do que estou a fazer. Acho que posso dizer que já não tenho aquela sensação de que falta sempre alguma coisa. Não sei dizer-te exatamente o que vem a seguir, mas posso dizer-te que sinto finalmente que estou no caminho certo!